O boom das canetas emagrecedoras
Mounjaro, Ozempic, Zenpic — os nomes mudam, mas a promessa é parecida: emagrecer rápido, sem esforço, com uma aplicação por semana. O acesso ficou mais fácil, o preço começou a baixar e, no dia a dia, os profissionais de saúde estão vendo cada vez mais pessoas usando essas canetas sem orientação médica, sem acompanhamento nutricional e sem praticar nenhum tipo de exercício físico.
No episódio do Imparáveis Podcast, os professores Daniel e Rafael, do CTP MovePro, e o nutricionista Anderson Okuda, do Metabofit, sentaram para explicar como essas substâncias funcionam no corpo, quais são os riscos reais e — principalmente — como é possível usar a caneta da forma correta, como uma ferramenta dentro de um processo completo de mudança de vida.
Como a tirzepatida funciona no corpo
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, não queima gordura. O que ela faz é emular dois hormônios que o nosso corpo já produz naturalmente: o GLP-1 e o GIP.
O GLP-1 funciona como um freio de mão no intestino. Quando você come, ele avisa o cérebro que já está satisfeito — pode parar. O GIP atua como um diretor financeiro: administra a energia que entrou, trabalha com a insulina e decide como gastar ou armazenar.
O problema é que, sob efeito da droga, esse freio de mão é acionado com uma quantidade muito pequena de comida. Uma pessoa que normalmente comeria 400 ou 500 gramas de alimento passa a se sentir satisfeita com 50 gramas. Além disso, a digestão fica mais lenta — o pouco alimento que entrou demora mais para ser processado.
Lado positivo A droga silencia o ruído da fome — aquela vontade de continuar comendo depois de já estar satisfeito, de pedir uma sobremesa, de beliscar. Isso pode ser muito útil para quem tem compulsão alimentar.
Lado negativo Esse efeito acontece com 5% a 10% da alimentação normal. A pessoa come drasticamente menos, absorve menos nutrientes e fica mais tempo com pouco alimento no sistema digestivo — o que gera uma série de problemas.
O que acontece quando você para de comer direito
Quando a alimentação cai de forma drástica e sem orientação, o corpo entra em modo de sobrevivência. Ele precisa continuar funcionando, então começa a priorizar: manda energia para o cérebro, para o coração, e corta de onde pode.
Cabelo? Não é essencial — começa a cair. Unhas? Ficam fracas e quebradiças. Pele? Perde colágeno e elasticidade. É o que ficou conhecido como "rosto de Ozempic" — a pessoa perde peso rápido, mas o rosto envelhece porque não tem mais sustentação muscular nem nutrientes suficientes para manter a pele saudável.
Mas vai além da aparência. A deficiência de vitamina B12, por exemplo, está se tornando uma epidemia entre usuários de canetas. A B12 é fundamental para a energia, o ânimo, o funcionamento cerebral. Uma pessoa com B12 baixa fica desanimada, com tendência a quadros depressivos, sem disposição para treinar ou para mudar qualquer hábito. E sem fome, a última coisa que ela vai fazer é comer um prato equilibrado de proteína, vegetais e gordura boa — vai preferir um biscoito, um achocolatado, calorias vazias que cabem no pouco apetite que restou.
O suco gástrico aumenta quando o alimento fica mais tempo no intestino. Isso pode causar refluxo, queimação no esôfago e até problemas nas cordas vocais. Outras reações comuns incluem náusea, vômito, diarreia e problemas de visão.
40% de perda muscular: o preço que ninguém conta
Esse é o número que muda a conversa. Quem usa a caneta sem treinar perde, em média, 40% do peso em massa muscular. Ou seja: se uma pessoa perdeu 20 kg, cerca de 8 kg eram músculo, não gordura.
E aqui entra a conta que não fecha. Perder 1 kg de gordura exige queimar cerca de 7.000 calorias. Para ter uma noção: uma corrida de 10 km gasta aproximadamente 700 calorias. Seria necessário correr 100 km para queimar 1 kg de gordura pura. Já perder músculo é rápido — e recuperar é lento.
Como explicaram Daniel e Rafael, para ganhar massa muscular é necessário treinar no mínimo duas a três vezes por semana, com constância, alimentação adequada e descanso. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos três sessões semanais de treino de força para prevenir a sarcopenia — a perda progressiva de músculo que tira a autonomia das pessoas com o passar dos anos.
Na prática Recuperar 8 kg de massa muscular perdida pode levar o dobro do tempo que a pessoa levou para perder. E nesse meio tempo, o corpo já sofreu as consequências: menos força, menos estabilidade, menos proteção para as articulações, menos saúde metabólica.
O efeito rebote: 80% voltam ao peso anterior
De acordo com as pesquisas citadas no podcast, 80% das pessoas que usaram as canetas da forma errada — sem profissional, sem mudança de hábitos — recuperaram o peso perdido. E o pior: o peso volta como gordura, não como músculo. Então a pessoa que pesava 90 kg, perdeu 20 e voltou para 90, agora tem uma composição corporal pior do que antes.
Isso acontece porque a caneta trata um efeito — o excesso de gordura — mas não trata a causa. A causa pode ser genética, emocional, metabólica, comportamental, ou uma combinação de tudo isso. Se a pessoa não muda o estilo de vida durante o uso da caneta, no momento em que parar, tudo volta.
O caminho correto: a caneta como muleta
A analogia que o Anderson trouxe no podcast é simples e poderosa: a caneta é uma muleta. Ela ajuda a pessoa a começar a andar, mas o objetivo é largar a muleta em 3, 4, 5 meses — não ficar dependente dela pro resto da vida.
Todos os estudos clínicos que validaram o Mounjaro e o Ozempic tiveram uma coisa em comum: os participantes, além de usar a medicação, mudaram a alimentação e praticaram exercício físico. Nenhum estudo foi feito com a caneta sozinha.
O roteiro que os profissionais sugeriram no podcast é claro:
Primeiro, consultar um médico sério — se o médico disser que basta tomar a caneta e não precisa se preocupar com mais nada, é hora de procurar outro médico. Depois, buscar um nutricionista que entenda que alimentação não é só contar calorias — é garantir que o corpo esteja recebendo proteína, vitaminas, minerais, tudo que ele precisa para funcionar, mesmo comendo menos. E, ao mesmo tempo, começar um trabalho de força orientado, com um profissional que entenda o que está acontecendo no corpo e consiga adaptar o treino à realidade daquela pessoa.
Se você já está usando a caneta, conte para o seu personal e para o seu nutricionista. Não esconda. Eles precisam saber para ajustar treino e alimentação. Ninguém vai te crucificar — o papel do profissional é orientar, não julgar.
O papel do treino de força
O treino de força é o que protege o músculo durante o emagrecimento. Sem ele, o corpo perde gordura e músculo juntos. Com ele, é possível manter a massa magra e até ganhar um pouco, mesmo usando a caneta — desde que a alimentação esteja adequada.
Daniel e Rafael destacaram que o ideal é treinar pelo menos duas a três vezes por semana, e que o ambiente faz diferença. Uma academia com 300 pessoas e dois instrutores não vai perceber que aquela aluna usando Mounjaro está sem forças, sem ânimo, precisando de adaptação. Um ambiente personalizado, como o que existe na MovePro, consegue ajustar o treino para cada situação, respeitar limitações e manter a motivação.
Eles trouxeram também um ponto que costuma ser esquecido: o agachamento. É o exercício mais funcional que existe, porque a gente agacha para tudo na vida — e porque as coxas são o maior grupamento muscular do corpo. Ter coxas fortes melhora a saúde metabólica como um todo.
Corrida, hábito e mudança de vida
O Anderson compartilhou sua própria história no podcast. Pesava 105 kg — para 1,70 m de altura, já era um grau de obesidade. Começou a correr com o Treinasco, grupo de corrida que ele ajudou a criar, e a mudança de hábito puxou todo o resto: ajustou a alimentação porque sabia que no dia seguinte tinha treino, parou de tomar vinho dois dias antes das corridas, começou a prestara atenção no que comia.
Mas ele faz questão de deixar claro: não foi só a corrida. Foi o efeito cascata de mudar um hábito e ver que os outros vêm junto. E ele também alerta que correr e depois tomar um café da manhã com bolo recheado, coxinha e suco de laranja não funciona — você gastou 700 calorias e consumiu 3.000.
Estudos recentes mostram que o aeróbico moderado — como a corrida em zona 2 — combinado com o treino de força potencializa a queima de gordura, porque nessa intensidade o corpo usa a gordura como combustível principal. Além do benefício físico, a corrida traz uma descarga de dopamina e serotonina que ajuda diretamente quem está lidando com desânimo, ansiedade ou depressão.
Para quem o Mounjaro é indicado
Os profissionais foram claros: o Mounjaro e o Ozempic foram criados originalmente como última tentativa antes da cirurgia bariátrica para pacientes com obesidade grave. Quando os médicos perceberam que funcionava bem, o uso se expandiu — mas a indicação continua sendo para quadros reais de obesidade, resistência à insulina e dificuldade metabólica.
Não é para quem quer perder 5 kg de barriga antes do verão. Se uma pessoa está levemente acima do peso e incomodada com a estética, o caminho é mais simples e mais barato: alimentação, treino de força, constância. A caneta é para quem realmente precisa — e mesmo nesses casos, sempre com acompanhamento completo.
A obesidade é uma doença E como toda doença crônica, não se resolve com uma aplicação. A pessoa precisa mudar o estilo de vida de forma permanente. A caneta ajuda a começar, mas quem sustenta o resultado é o hábito.
Resumo: o que levar deste artigo
A tirzepatida não queima gordura — ela reduz a fome de forma artificial, e com isso a pessoa come muito menos. Sem acompanhamento, isso leva a perda de músculo, deficiência de vitaminas, problemas digestivos, queda de cabelo, perda de colágeno e efeito rebote em 80% dos casos.
Usar a caneta como muleta temporária, junto com treino de força, alimentação orientada e acompanhamento profissional, é o caminho que funciona. E quando chegar a hora de largar a muleta, a pessoa já mudou seus hábitos — e o resultado se sustenta sozinho.
Se você está usando a caneta ou pensando em usar, procure profissionais que entendam o processo completo. E se já está usando, seja transparente com o seu personal e com o seu nutricionista. Isso faz toda a diferença.